[Assunção de Nossa Senhora] - A Preciosa Morte de Maria

"É a morte pena do pecado. Ora, sendo Maria toda santa e isenta de toda mancha, parece que não devia ser sujeita a padecer a mesma desventura dos filhos de Adão, atingidos todos pelo veneno do pecado.
[...]
Três coisas costumam tornar amarga a morte: o apego à terra, o remorso dos pecados e a incerteza da salvação. Mas a morte de Maria foi totalmente isenta dessas amarguras, e, ao contrário, acompanhada de três belíssimas graças que a tornaram sumamente preciosa e suave. Morreu, como sempre vivera, completamente desapegada dos bens mundanos; morreu com suma paz de consciência; morreu na certeza da glória eterna.”


1) Desprendida dos Bens do Mundo


“Não há dúvida que o apego aos bens terrenos torna amarga e miserável a morte dos mundanos, como diz o Espírito Santo: 'Ó morte, quão amargosa é a tua memória para um homem que tem paz no meio de suas riquezas' (Eclo 41,1). Mas, porque morrem os santos desapegados das coisas do mundo, a morte não lhes é amarga, mas doce, amável e preciosa. [...] 'Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor' (Ap 14,13). Quais são esses que morrem, já estando mortos? São justamente essas almas venturosas que na hora da morte já estão desapegadas das coisas terrenas, e só em Deus encontram todo bem.
[...]
S. João viu Maria figurada naquela mulher vestida de sol, que tinha a lua debaixo dos pés (Ap 12,1). Pela lua explicam os intérpretes significar-se o mundo, e seus bens caducos e sujeitos a inconstância, como o é a lua. Todos estes bens, Maria nunca os teve no coração, mas sempre os desprezou e teve debaixo dos pés. [...] Havendo, pois, Maria vivido sempre desprendida inteiramente das coisas terrenas, e sempre unida a Deus, não amarga, mas doce e suave devia-lhe a morte, por uni-la mais estreitamente a Deus com vínculo eterno no paraíso."


2) Mais Doce Paz do Espírito


"São os pecados cometidos que mais afligem e roem o coração dos pobres moribundos. Lembrando-se que hão de comparecer dentro em pouco perante o tribunal divino, se veem nessa extremidade rodeados por seus pecados, que o apavoram. [...] Não pôde Maria ser afligida na morte por algum remorso de consciência. Pois não fora sempre santa, pura e livre de toda a sombra de culpa atual e original?
[...]
Todos os seus pensamentos, desejos e afetos, só a Deus tinham por objeto. Não disse palavra, não fez movimento, não deu uma vista de olhos, não respirou, que não fosse por Deus e para glória Sua, sem jamais separar-se um momento do amor divino."


3) Certeza da Glória Eterna


"Faz doce a morte a segurança da eterna salvação. A morte chama-se trânsito, porque por ela se passa de uma vida breve a uma vida eterna. Por isso é grande o espanto daqueles que morrem com dúvida da sua salvação, e se avizinham do grande momento com justo temor de uma morte eterna. Pelo contrário, é muito grande a alegria dos santos em acabar a vida. Pois com firme confiança podem esperar pela posse de Deus no céu.
[...]
Mas que júbilo sentiria a Divina Mãe, ao receber a notícia da sua morte? Ela, tão certa e segura de possuir a graça divina, especialmente depois que o arcanjo S. Gabriel lhe assegurou que era cheia de graça e possessora de Deus! [...] Ela, por singular privilégio não concedido a nenhum outro santo, amava e estava sempre amando a Deus, em cada instante de sua vida.
[...]
E qual viveu a amante Virgem, tal morreu. Assim como o amor divino lhe deu a vida, assim lhe deu também a morte. Pois, como dizem comumente os doutores e os Santos Padres, ela morreu não de outra enfermidade, senão de puro amor."

(Trechos retirados do livro "Glórias de Maria" de Santo Afonso Maria de Ligório)

Comentários