Fragmentos do Livro “Filoteia” de São Francisco de Sales (4)

13. Sobre a Morte


"[...] de nada sabemos, a não ser que havemos de morrer induptavelmente e sempre mais cedo que pensamos.

Grava bem em teu espírito que então para ti já não haverá mais mundo, vê-lo-ás perecer ante teus olhos; porque então os prazeres, as vaidades, as honras, as riquezas, as amizades vãs, tudo isso se te afigurará como um fantasma, que se dissipará ante tuas vistas. Ah! Então haverás de dizer: Por umas bagatelas, umas quimeras, ofendi a deus, isto é, perdi o meu tudo por um nada.
[...]
Já que não sei a hora em que hei de te deixar, ó mundo; já que esta hora é tão incerta, não me quero apegar a ti."

14. O Juízo Final


"Escuta atentamente a sentença formidável que o soberano Juiz pronunciará contra os maus: ide, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o diabo e seus anjos. [...] Esta palavra já nos está anunciando o abandono completo em que Deus deixará sua criatura, expulsando-a de sua presença e não contando mais no número daqueles que lhe pertencem.
[...].
Escuta também a sentença que decidirá sobre a sorte feliz dos bons: VINDE, dirá o Juiz. Ah! esta doce palavra de salvação, pela qual o nosso Divino Salvador nos há de chamar a si, para receber-nos, bondoso, entre seus braços. Vinde, benditos do meu pai. Ó bênção preciosa e incomparável, que encerra em si todas as bênçãos! Possuí o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Ó meu Deus, que graça! possuir um reino que nunca terá fim!"


15. Sobre os Condenados no Inferno.


"Os condenados estão no abismo do inferno, como desventurados habitantes dessa cidade de horrores. Padecem dores incalculáveis em todos os sentidos e em todo o corpo; pois, assim como empregaram todo o seu ser para pecar, sofrerão também em todo ele as penas devidas ao pecado. Deste modo, sofrerão os olhos por seus olhares pecaminosos, vendo perto de si os demônios em mil figuras hediondas e contemplando o inferno inteiro. Aí só se ouvirão lamentos, desesperos, blasfêmias, palavras diabólicas, para punir por estes tormentos os pecados cometidos por meio dos ouvidos. E de modo análogo acontecerá aos demais sentidos.
[...].
Considera sobretudo a eternidade, a qual por si só faz o inferno insuportável. Ah! se o calor de uma febrezinha torna uma noite comprida e enfadonha, que horrenda não será a noite do inferno, onde a eternidade se ajunta à abundância dos tormentos? É desta eternidade que procedem a desesperação eterna, as blasfêmias execráveis e os rancores sem fim."


16. Sobre o Paraíso Celeste


"[...] Ó cidade santa de Deus, quão gloriosa, quão deliciosa és tu!

Considera a nobreza, a formosura, as riquezas e todas as excelências da companhia santa daqueles que vivem aí; esses milhões de anjos, serafins e querubins; esses exércitos inumeráveis de apóstolos, de mártires, de confessores, de virgens e de tantos outros santos e santas. Oh! que união bem-aventurada a dos santos na glória de Deus. O menor de todos é mil vezes mais belo que o mundo inteiro; que dita será vê-los todos juntos!
[...].
Considera muito mais ainda o auge de sua bem-aventurança, o qual consiste na felicidade de ver a Deus, que os honra e inunda de gozos pela visão beatífica, fonte de bens inumeráveis, pela qual ele emite todas as luzes da sabedoria em suas mentes e todas as delícias do amor em seus corações. Que felicidade ver-se ligado tão estreitamente e para sempre a Deus em laços tão preciosos!
[...]
Por que fugi assim de minha felicidade suprema? Ah! miserável que eu sou! Mil vezes renunciei a estas delícias infinitas e eternas, para ir atrás de prazeres superficiais, passageiros e misturados de muita amargura. Onde tinha a cabeça, quando desprezei assim os bens estáveis e dignos de almejar, por causa dos prazeres vãos e desprezíveis?"



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