Dia 17: Nossa Impossibilidade na Vida Sobrenatural (Consagração a Nossa Senhora)



“Não há, pois, santidade, Senhor, se retirais vossa mão. Não já sabedoria que aproveite, se deixais de a governar. Não há fortaleza que valha, se deixais de a conservar. Não há castidade segura, se deixais de a defender. Não é proveitosa a própria vigilância, se falta vossa santa guarda. Desamparados, afundamos logo e perecemos, mas visitados por vós nos reerguemos e vivemos. Somos, com efeito, inconstantes, mas por vós somos confirmados; somos tíbios, mas vós nos afervorais” (Imitação de Cristo, Liv 3, Cap XIV).

Já meditamos o quanto somos um nada sem Deus. Agora, pensemos na nossa impossibilidade na vida sobrenatural, isto é, na vida além da nossa vida natural, uma vida que não podemos perceber sem a luz da fé. Uma vida que, aliás, não temos conhecimento senão por revelação. Durante toda a história de Salvação, desde a queda de Adão, Deus tem nos agraciado e nos revelado a si próprio e como chegarmos a Ele. Essa revelação se concluiu com a encarnação do Verbo, a Sabedoria Eterna, o Filho de Deus.

D. Antônio Maria Alves de Siqueira, em seu livro dedicado para a Consagração a Nossa Senhora, na meditação proposta para o décimo sétimo dia, nos fala: “Se na ordem natural pode o homem fazer alguma coisa, algum bem, alguns atos de virtude, morais, na ordem sobrenatural sua incapacidade é total e absoluta. Sobrenatural é o que ultrapassa pura e simplesmente a ordem criada, de tal sorte que para essa elevação não temos direito nem disposição alguma, senão somente uma capacidade obediencial, o que quer dizer, a possibilidade de sermos elevados acima de nossa natureza pela onipotência de Deus”.

Jesus encarnou para a Salvação entrar no mundo, vencendo o pecado e seus efeitos, inclusive o principal deles que é a morte quando ressuscitou. Na ascensão, ele confiou a nós a missão de angariar almas para o Reino e para isso enviou o Espírito Santo que distribui graças, graças essas que o Espírito distribui por Sua fidelíssima Esposa, a Santíssima Sempre Virgem Maria, Nossa Senhora.

Assim, podemos dizer que Jesus “é como um homem que partia para o estrangeiro, antes chamou seus servos e lhes confiou seus bens” (Mt 25,14). Ele retornará, gloriosamente, para reclamar o que é Seu por direito e que nos confiou através da graça, e precisaremos prestar contas (cf. Mt 25,29).

Estamos cientes de como Ele é exigente, proporcionalmente à sua bondade, proporcionalmente a graça que nos deixou. Se formos que nem o servo que pegou a graça, guardou para si, para devolver inteiramente ao senhor sem aplicar em nada (cf Mt 25,24-25), seremos classificados como maus servos e seremos expulsos de sua terra, no caso de Jesus, expulsos do Céu (cf. Mt 25,30).

Os bens que Deus nos concede gratuitamente são desproporcionais se comparados com o que teríamos por direito, se aplicarmos dignamente, com confiança, sem duvidarmos de sua misericórdia, como o servo que por medo do seu senhor preferiu devolver o que lhe foi confiado do que acreditar na graça concedida pelo patrão. A completa perfeição dessa “desproporcionalidade” podemos ver em Nossa Senhora, que aproveitou tudo que as graças concedidas poderiam alcançar. Maria é a repleta de graça e a partir dela deu o seu “sim” para Deus e participou do projeto de salvação da humanidade. Dizendo nosso “sim”, tornando-nos escravos de amor, abrimos as portas para também participar do projeto de salvação da humanidade. Como os talentos entregues aos servos, as graças entregues a nós deverão ser aplicadas para a glória de Deus e Deus, gratuitamente, por generosidade, por misericórdia e também por justiça, nos fará participar de sua vida nos elevando, nos entregando graças desproporcionais se comparadas ao que mereceríamos.

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