Deus Auxilia e Ensina nas Adversidades e Sofrimentos



"Disseram, diante da assembléia: Mandem buscar Suzana, filha de Helcias, a mulher de Joaquim! Foram-na buscar, e ela chegou [...] Os dois anciãos levantaram-se à vista de todos, e pousaram a mão sobre sua cabeça, enquanto ela, debulhada em lágrimas, mas com o coração cheio de confiança no Senhor, olhava para o céu.

Os anciãos disseram então: Quando passeávamos pelo jardim, ela entrou com duas servas; depois fechou a porta e mandou embora suas acompanhantes. Então, um jovem que se achava escondido ali, aproximou-se e pecou com ela. Nós nos encontrávamos num recanto do jardim. Diante de tal desvergonhamento, corremos para eles e os surpreendemos em flagrante delito. Não pudemos agarrar o homem, porque era mais forte do que nós, e fugiu pela porta aberta. Ela, nós a apanhamos; mas quando a interrogamos para saber quem era o jovem, recusou-se a responder. Somos testemunhas do fato.

Confiando nesses homens, que eram anciãos e juízes do povo, condenaram Suzana à morte. Então ela exclamou bem alto: Deus eterno, vós que penetrais os segredos, que conheceis os acontecimentos antes que aconteçam, sabeis que isso é um falso testemunho que levantaram contra mim. Vou morrer, sem nada ter feito do que maldosamente inventaram de mim. Deus ouviu sua oração.

Como a levassem para a morte, o Senhor suscitou o espírito íntegro de um adolescente chamado Daniel, que proclamou com vigor: Sou inocente da morte dessa mulher!

Todo mundo virou-se para ele: O que significa isso?, perguntaram-lhe. Então, no meio de um círculo que se formava, disse: Israelitas, estais loucos! Eis que condenais uma israelita sem interrogatório, sem conhecer a verdade! 
[...]
Então Daniel chamou o primeiro e disse-lhe: Velho perverso! Eis que agora aparecem os pecados que cometeste outrora em julgamentos injustos, condenando os inocentes e absolvendo os culpados; no entanto, é Deus quem diz: não farás morrer o inocente e o íntegro. Vamos! Se realmente a viste, dize-nos debaixo de qual árvore os viste juntos. -"Debaixo de um lentisco", respondeu. [...] Daniel mandou vir o outro e disse-lhe: Filho de Canaã! Tu não és judeu: foi a beleza que te seduziu, e a concupiscência que te perverteu. Foi assim que sempre fizeste com as filhas de Israel, as quais, por medo, entravam em relação convosco. Mas eis uma filha de Judá que não consentiu no vosso crime. Vamos, dize-me sob qual árvore os surpreendeste em intimidade. Sob um carvalho.
[...]
Logo a assembléia se pôs a clamar ruidosamente e a bendizer a Deus por salvar aqueles que nele põem sua esperança." 
(Dn 13, 29-60)



Nossa Senhora, com o seu “sim”, se entregou totalmente aos desígnios de Deus. Ela nos ensina que quando dizemos “sim” ao Senhor não nos resta outra alternativa a não ser uma total entrega, uma total confiança. Caso contrários, apenas sofreremos.

Não é possível dizer um “sim” com condicionais. Quando somos escolhidos por Deus para realizarmos Suas obras, essas obras, provavelmente, irão de encontro com tudo que é do mundo. Muito provavelmente pessoas irão se levantar contra, principalmente se for para mortificar as suas paixões mundanas.

A Santíssima Virgem não hesitou em dizer “sim” ao Senhor, mas certamente pensou que pelo menos duas consequências desse seu “sim” iriam cair sobre si: Ou o povo iria achar que ela traiu José, ou achar que se deitou com José antes do casamento. Duas coisas abomináveis.

Se Nossa Senhora não tivesse depositado toda a sua confiança em Deus, se tivesse pensado somente nas consequências mundanas do seu ato, teria colocado condições a si mesma e, talvez, teria começado a pensar no que dizer ao mundo (e principalmente a José) sobre aquele acontecimento sobrenatural, que foge a lógica de qualquer explicação, e provavelmente mentiras ou desculpas viriam à tona, pois o sobrenatural foge a nossa capacidade de entendimento e expressão.

As pessoas ao seu redor a julgaram, pelo menos em seu íntimo, e muitas vezes até a devem ter condenado. O julgamento humano parte de conhecimento humano e diante de fatos que estão visíveis ou relatados. As pessoas não têm acesso ao coração de cada um e dificilmente têm acesso à realidade completa, mas somente a recortes. “Vós julgais segundo a aparência” (Jo 8,15).

Para chegar a um Fim (de finalidade) é possível percorrer diversos caminhos que podem ser retos ou não. Tais caminhos dão certo valor positivo ou negativo a este Fim. Uma gravidez antes do casamento é um Fim que por todos os caminhos conhecidos pelos humanos é negativo, mas a ação de Deus, a concepção virginal e pelo Espírito Santo, inverteram completamente a lógica, transformando tal Fim no mais positivo dos fins.

A Virgem de Nazaré, totalmente entregue aos desígnios de Deus, teve inúmeros livramentos a seu favor, embora tais livramentos nem sempre (quase nunca) foram fáceis e sem sofrimentos. Ela precisou sair de Nazaré com José, por exemplo, o que certamente a livrou dos julgamentos constantes do seu próprio povo, mas para isso ela passou pelo sofrimento da falta de lugar para dormir, de dar à luz a Jesus em um estábulo, exílio no Egito, etc...

Como tais fatos foram espontaneamente dentro da vontade de Deus, tirou-se de todos eles ensinamentos valiosos. Ensinamentos que não seriam possíveis se, digamos, ela decidisse ficar em Nazaré e “corajosamente” enfrentar tudo que poderia passar por lá.

Já do lado do povo, quantos não morreram na ignorância e no pecado do julgamento injusto! Quantos também não devem ter sentido vergonha da injustiça cometida em relação ao Santo Casal, depois de conhecer a Verdade! A intensidade de tal vergonha sempre é proporcional à “certeza” que se tenha antes de conhecer a Verdade, fora que essa intensidade aumenta exponencialmente na medida que tal “julgador” disseminou seu próprio julgamento através de “fofocas”.

Quando dizemos “sim” a Nosso Senhor e nos entregamos a Ele sem reservas, buscando a retidão e cumprimento da Sua divina Vontade, Deus nos auxilia a passar por todas as adversidades. Dessas adversidades o Senhor tira ensinamentos preciosíssimos para todos os seres humanos. De quantos sofrimentos Nossa Senhora recebeu consolo, muitos consolos, inclusive, do próprio Deus encarnado! E quantos ensinamentos podemos obter meditando esses sofrimentos vividos por Nossa Senhora!



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