Deus Quer que Sejamos Divinos



"Amai a justiça, vós que governais a terra, tende para com o Senhor sentimentos perfeitos, e procurai-o na simplicidade do coração,
 porque ele é encontrado pelos que o não tentam, e se revela aos que não lhe recusam sua confiança; com efeito, os pensamentos tortuosos afastam de Deus, e o seu poder, posto à prova, triunfa dos insensatos.

Sabedoria não entrará na alma perversa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado; o Espírito Santo educador (das almas) fugirá da perfídia, afastar-se-á dos pensamentos insensatos, e a iniqüidade que sobrevém o repelirá. Sim, a Sabedoria é um espírito que ama os homens, mas não deixará sem castigo o blasfemador pelo crime de seus lábios, porque Deus lhe sonda os rins, penetra até o fundo de seu coração, e ouve as suas palavras. Com efeito, o Espírito do Senhor enche o universo, e ele, que tem unidas todas as coisas, ouve toda voz.

Aquele que profere uma linguagem iníqua, não pode fugir dele, e a Justiça vingadora não o deixará escapar; pois os próprios desígnios do ímpio serão cuidadosamente examinados; o som de suas palavras chegará até o Senhor, que lhe imporá o castigo pelos seus pecados.

É, com efeito, um ouvido cioso, que tudo ouve: nem a menor murmuração lhe passa despercebida. Acautelai-vos, pois, de queixar-vos inutilmente, evitai que vossa língua se entregue à crítica, porque até mesmo uma palavra secreta não ficará sem castigo, e a boca que acusa com injustiça arrasta a alma à morte.

Não procureis a morte por uma vida desregrada, não sejais o próprio artífice de vossa perda. Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma. Ele criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e a morte não é a rainha da terra, porque a justiça é imortal. Mas, (a morte), os ímpios a chamam com o gesto e a voz. Crendo-a amiga, consomem-se de desejos, e fazem aliança com ela; de fato, eles merecem ser sua presa."

(Sabedoria, 1)


Olhamos para o lado e nos salta aos olhos tantas perdições, tantas injustiças, tantas vidas ceifadas prematuramente, tantas almas que se perdem seduzidas pelas satisfações às coisas passageiras. Ao olharmos para o mundo somente com os olhos carnais, humanos, deixando guardado e no canto a fé, só conseguimos ver ruindade, tentando-nos a perder as esperanças e a acreditar que a criação humana é algo terrível. Esquecemos que o homem foi criado imagem e semelhança de Deus.

Ora, se Deus por definição é Bom, como podemos ser tão maus? Deus criou as coisas e ao final de cada dia de criação constatou que todas as coisas criadas são boas. Como podemos estar imersos em tanta maldade?

Deus é Amor. Deus nos ama e o seu amor é tão grande que Ele quer que participemos desse Amor. O amor só pode existir num ambiente de liberdade e por isso Deus nos deu o livre-arbítrio, para que possamos gozar da totalidade do Amor Nele e com Ele. Por isso Ele também nos deu domínio sobre toda a criação terrena, para que no exercício da nossa liberdade possamos participar com Ele do gozo da criação.

Só que pervertemos. Abusamos da nossa liberdade. Abusamos do Amor que Deus tem para conosco. Ao invés de exercermos a nossa liberdade para gozarmos da alegria divina e nos aproximarmos, amarmos, cada vez mais o nosso Criador, preferimos nos afastar Dele para sermos como Ele e, muitas vezes, até concorrermos com Ele.

Quantas vezes desejamos para nós elogios, honras, glórias, atenção? Sem dúvidas, um “sem número” de vezes!

Como tudo isso não nos pertence, mas, por graça, pode nos ser dado, buscamos de forma insensata as coisas que pertencem a Deus, que Ele que nos dar, mas que queremos só para nós. Achamos uma injustiça, e até mesmo um absurdo, que o que por direito nosso e, por bondade, compartilhamos, e o outro nos explora e nos rouba o que nos é de direito. Por que com o que é por direito de Deus seria diferente? Por que queremos tomar para nós o que é por direito de Deus e não nos escandalizamos tanto quanto vemos os desvios realizados pela e para a corrupção?

Pecamos e renegamos a Deus. Mas, Ele nos chama constantemente para retornarmos a Ele. Para aplacar a Sua Justiça, ele nos deu Seu Filho Único. Não satisfeito, deixou Seu Filho Único presente na história até a consumação dos dias, nos deu os Sacramentos para nos apoiar na Salvação, nos enviou os Santos para nos auxiliar, nos deu uma Mãe, a Sua Mãe Imaculada, e ainda age diretamente em sua Divina Providência. Ele tenta se aproximar de nós o tempo inteiro, mas nós fazemos questão de nos afastarmos Dele.

Deus não habita onde há pecado, mas constantemente vem até nós, cheios de pecados, e nos chama. Nós, miseravelmente, desgraçadamente, em busca apenas dos prazeres efêmeros, impomos condições para ficarmos com “aquele pecadinho”, “aquela paixão desordenada pequenininha”, que tanto gostamos e dizemos não ao gozo eterno de Deus.

Maria é o exemplo máximo de criatura em todas as coisas de que são de Deus. Ela, como criatura, é perfeita e ama Deus de forma perfeita e plena. Assim, Deus habitou Nela e nos deu o exemplo de que é possível uma criatura ser elevada ao grau de divindade, mas isso só é possível se fizermos como Maria, deixar o Espírito Santo atuar e estarmos totalmente abertos para recebermos as graças.

Cabe observar que “ser elevado ao grau de divindade” não significa nos tornarmos deuses. Ser elevado ao grau de divindade significa gozarmos da natureza divina, por assim dizer, meio que incorporados no criador. Isso só Deus pode fazer e, bom deixar claro, por pura bondade, por puro amor, por pura graça.

Estar abertos às graças é estar desapegados de tudo que não seja Deus e nos esvaziarmos, renegarmos as nossas desordens, para que Deus possa voltar a habitar em nós e, assim, nos tonarmos divinos, eternos, eternamente felizes.







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